Mohamed Sanhadji, o homem que, durante mais de duas décadas, se encarregou da logística e da segurança da seleção francesa de futebol, foi formalmente indiciado pelos magistrados de instrução de Paris por um vasto leque de acusações de corrupção, fraude e branqueamento de capitais, num caso que arrastou o avançado estrela Kylian Mbappé para uma controvérsia jurídica inesperada, precisamente quando os «Bleus» se preparam para futuras competições internacionais.
Sanhadji, um antigo agente da polícia, integrou a estrutura da Federação Francesa de Futebol (FFF) em 2004 e desempenhou as funções de responsável pela logística e segurança da seleção nacional durante mais de vinte anos, antes de se reformar antecipadamente da Polícia Nacional em dezembro de 2025. Ao longo desse período, tornou-se uma figura familiar e de confiança no seio da equipa, estando presente nos estágios, nos torneios e no centro de treino nacional de Clairefontaine, com acesso regular aos jogadores e à comissão técnica.
O processo contra ele gira em torno de um cheque no valor de 60 300 €, que Mbappé passou a Sanhadji em junho de 2023, proveniente do bónus que o avançado ganhou pela participação da França na final do Campeonato do Mundo de 2022. O pagamento chamou pela primeira vez a atenção dos investigadores em julho de 2024, quando um banco francês sinalizou a transação à Tracfin, a unidade de informação financeira do país responsável pela deteção de branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo. A comunicação da Tracfin desencadeou uma investigação preliminar, tendo sido aberto um inquérito judicial formal em janeiro de 2026.
A 16 de setembro de 2026, Sanhadji foi detido pela polícia e, posteriormente, colocado sob investigação formal (mise en examen) pelo Ministério Público de Paris. A lista de acusações é invulgarmente extensa para um único arguido: corrupção de um funcionário público, tráfico de influências ativo e passivo — incluindo uma dimensão internacional na acusação de tráfico de influências —, desvio de fundos públicos, fraude e branqueamento de capitais associado a fraude fiscal. Os juízes de instrução impuseram uma fiança de 80 000 euros como condição para a sua libertação até ao julgamento.
As medidas de supervisão judicial impostas a Sanhadji são particularmente rigorosas. Foi-lhe proibido contactar qualquer jogador atual ou antigo da seleção nacional francesa, membro da comissão técnica ou dirigente da FFF, e está impedido de entrar na sede da FFF, no centro de treinos de Clairefontaine, no Stade de France ou no Parc des Princes — o que o afasta efetivamente do mundo do futebol que marcou a sua carreira. Está-lhe também proibido assumir qualquer cargo no desporto profissional, tanto em França como no estrangeiro, e está impedido de voltar a trabalhar nas forças de segurança.
O próprio cheque de Mbappé está no centro das alegações de corrupção e desvio de fundos, embora os investigadores tenham indicado que o caso vai além dessa transação isolada. De acordo com as notícias sobre o caso, o inquérito teve origem numa análise mais ampla dos rendimentos não declarados de Sanhadji e de uma possível fraude fiscal, tendo-se posteriormente alargado para apurar se o seu cargo lhe conferia influência ou acesso indevidos que ele teria explorado para obter ganhos financeiros pessoais — o que constitui a base das acusações de corrupção e tráfico de influências. A acusação de desvio de fundos diz respeito a fundos públicos, refletindo o escrutínio sobre a forma como os recursos ligados às atividades públicas da seleção nacional e às atividades relacionadas com a federação podem ter sido desviados.
Mbappé, por seu lado, não é, neste momento, suspeito no caso; o cheque é considerado pelos investigadores como o pagamento no centro do que alegam ser um esquema mais vasto de Sanhadji, e não como prova de irregularidades por parte do jogador. As notícias sobre o caso referem que a Federação Francesa de Futebol está a ponderar a possibilidade de se constituir como parte civil no processo, uma medida que lhe permitiria reclamar uma indemnização e posicionar-se formalmente como vítima do alegado desvio de fundos e fraude, em vez de como uma instituição implicada em irregularidades.
O caso suscitou grande atenção em França, em parte devido ao acesso invulgarmente próximo que Sanhadji teve à seleção nacional ao longo de duas décadas, abrangendo várias edições do Campeonato do Mundo, Campeonatos da Europa e os altos e baixos da história recente dos Bleus, incluindo o título do Campeonato do Mundo de 2018 e a dolorosa derrota na final de 2022 frente à Argentina. A sua saída desse mundo, sob restrições judiciais, marca o fim abrupto de um dos papéis mais discretos, mas de longa duração, no seio da seleção francesa — alguém cuja função era estar presente em todo o lado à volta da equipa, sem nunca ser ele próprio o centro das atenções.
A investigação continua em curso e ainda não foi marcada qualquer data para o julgamento. Espera-se que os investigadores financeiros franceses continuem a analisar as finanças de Sanhadji, incluindo a origem e o destino dos fundos relacionados com as alegações de fraude fiscal e branqueamento de capitais, bem como quaisquer outros pagamentos para além do cheque de Mbappé que possam enquadrar-se no âmbito das acusações de corrupção e tráfico de influências. Dada a amplitude das acusações — que abrangem corrupção, fraude pública, desvio de fundos e branqueamento de capitais —, é provável que o caso seja tratado com o envolvimento de especialistas em crimes financeiros do Ministério Público de Paris, tendo em conta a experiência deste órgão em casos complexos de crimes de colarinho branco com múltiplas acusações.
Por enquanto, Sanhadji continua sob supervisão judicial, sem poder pôr os pés em nenhum dos locais que marcaram a sua vida profissional durante mais de vinte anos, enquanto os procuradores continuam a construir o seu caso em torno da forma como um cheque de bónus de rotina do Mundial se tornou o ponto de partida para uma das investigações de corrupção mais invulgares do futebol francês.